quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Zumbi neoliberal II

Imagem: Noisecraft

Market God...
De um consumista pobre
De um capitalista miserável

Desejos...
De um materialista oco
De um manufaturado ser

Medíocres sonhos...
De um porquinho de plástico
De alma pequena e fútil

Vontades...
De um produto
A preço de custo

Mercadorias...
Para o consumo
De um inanimado objeto
De um porco imundo

De uma coisa!


QNP02- Lino San

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Regozijo



Vou lhes resumir uma breve história:
Eu era eu.
E tão eu somente.
Deixei que as amarras da ignorância
As rédeas do limitado
E o social doente
Transformassem-me.

O medo
De ser rejeitado
De não ser aceito
De não ser amado
De ser criticado
Roubou-me de mim.

Aos poucos, transformei-me no que tanto temia
Algo que não era.
Algo sem essência
Vida em coma
Flor sem cheiro
Vento sem pulmão.

O pior foi acordar num belo dia
E não mais me reconhecer
Perguntar-me de mim
E não saber me responder:
Quem é este homem que vejo no espelho?

Perdi-me
Morri
Matei
Eu

Morri
E queres saber, leitor, como fui morto?
Mataram-me a machadadas - e não eram as de Assis
Os Anjos que me rodeavam não eram de Augusto
Fernando - oh Fernando -  não era mais Pessoa

Onde eu estava quando tudo isso aconteceu?

...

Não houve cerimônia
Não houve velório
Quem dera ter tido enterro de indigente!

...

E ao terceiro dia
Deveria ressuscitar?
Não sou o Nazareno
Menos ainda filho da Luz

Sou mortal, humano, nada divino
E com toda a divindade:
E como se fosse Deus:
Num ato pleno:
Gritei:

- FAÇA-SE A LUZ NOVAMENTE!

Ressuscito agora.
Permito-me morrer todos dias
Desde que
Eu aprenda a nascer da mesma forma.

Só não ouse, mundo, tirar-me a poesia.
Tirar-me a arte
Tirar-me de mim.
Pois de tu, sou parte
E nunca deveras ter fim
Nem a agonia
Nem a alegria
Que a poesia seja o mal e a cura
Seja doce amargura
Seja negra ternura
Só não ouse, mundo, tirar-me a poesia.

mundo, pobre, mundo
imundo és.
Ingrato, injusto, império imposto
Dono de meu desgosto
Não somente
- Casa de minh’alma
- Campo de minha semente

(16h41)
09/06/2017

QNP01 - Luciano Syd

sexta-feira, 28 de julho de 2017

MISTERIOSAMENTE: Amor e pecado


      Misteriosamente, um sonho insólito invadiu o sono de Andrew durante uma noite silenciosa de outono. Com o rosto suarento, ele se remexia no leito, mas não conseguia soltar o grito de pavor que tanto desejava, a fim de interromper a angustiante condição. No sonho, ele encontrava-se em um lugar paradisíaco, com muitas árvores frutíferas, um rio de águas claras que fluía lentamente e sob um céu azulado, cujo brilho parecia penetrar em seus olhos e invadir sua alma. Ao lado dele, estava Natasha, a mulher à qual um dia jurou amar eternamente, e naquele sonho parecia que o juramento estava sendo cumprido. Andrew sentia até então uma satisfação enorme em seu sonho, pois podia apreciar o sorriso meigo de sua esposa e dedicar a ela as mais amorosas carícias. No entanto, em questões de segundos, seu olhar se distraiu em outra direção, onde despontava um extenso deserto e uma mulher vestida como odalisca dançava sensualmente. Aquela imagem parecia enfeitiçar-lhe sem piedade. Os meneios do corpo da lasciva mulher atraíram-no de tal forma que já ignorava os encantos da bela paisagem, e seguia sedento em direção ao deserto, onde carcaças de animais eram cozinhadas pelo sol ardente, o vento refrescante era agora um vapor horrendo e sufocava-o aquele azul profundo do céu. Ainda assim, um desejo misterioso conduzia-o para os braços da odalisca, seus passos que afundavam na areia resistiam ao cansaço. Ainda que olhasse para trás e percebesse sua amada desconsolada e sofrendo com aquela atitude inesperada, a expectativa de mergulhar profundamente na atmosfera voluptuosa da mulher desconhecida governava seu pensamento. E quando finalmente pôde abraça-la, seu corpo começou a arder devido a um prazer intenso, mas ao mesmo a desintegrar-se a cada beijo da odalisca, como se fragmentos dele fossem se perdendo em meio aquela areia fervorosa, até já não existisse mais, nem para o amor, nem para o pecado. E, foi nessa passagem do sonho que Andrew desesperou-se dormindo, em uma ânsia de acordar, tomado por um tremor em todo seu corpo. E acordou ofegante, assustado, olhou para o lado no leito e lá estava dormindo profundamente ela, não a esposa, mas a amante.

      QNP05 - Alexandre Campanhola

quinta-feira, 20 de julho de 2017

De Romero a zumbis coreanos

É, meus amigos, George Romero o mestre do terror  se foi e infelizmente não voltará do túmulo como em seus filmes, mas saibamos que ele deixou um legado horripilante e muito rico para nosso cinema. Para além dos mortos-vivos, seus filmes nos fazem refletir sobre muitas coisas, a começar pela nossa existência. E assim como ele, muitos outros diretores continuarão a nos surpreender.


Dias atrás recebi a notícia da morte do diretor de cinema George Romero justamente quando ia começar a assistir um filme do mesmo gênero que sempre fora proposto por ele nas telas, porém, de outro diretor, Yeon Sang-ho,  e de uma terra bem distante da América do Norte, a Coréia do Sul. O filme que originalmente pode ser traduzido do coreano apenas como Busan, no Brasil recebeu o tosco nome de Invasão Zumbi (Quem é que traduz os nomes desses filmes?).



Estranhas coincidências zumbis a parte, o filme do premiado diretor Yeon Sang-ho à primeira impressão parece ser um terror pobre de enredo e feito apenas para vender e dar alguns sustos, porém acaba sendo mais um drama surpreendente do que um terror meia-boca, onde, assim como os trabalhos de Romero, zumbis, cenas de tensão, sangue, violência e carnificina são em boa parte, apenas um pano de fundo para retratar assuntos mais profundos ou fazer críticas sociais.


O filme conta a história do individualista Seok-woo, um workaholic divorciado e tremendamente egoísta e sua filha Soo-an, uma garotinha meiga e nada parecida com o pai. Além de egoísta é ausente como pai, pois está sempre preocupado com o trabalho e nunca tem um tempo para a filha, o máximo que ele faz é dar presente repetido a ela. Convencido pela filha a visitarem a ex-esposa que mora na cidade de Busan,  Seok-woo se vê em uma situação aterradora quando o trem do qual viajam está sendo infectado por algo que transforma os tripulantes em zumbis enquanto que o país todo entra em estado de emergência com a acelerada infecção da população. Desesperado, Seok-woo só pensa em salvar-se junto com a filha e ir para um local seguro, não se importando com mais ninguém. 


O pai de Soo-an irá aprender com ela e com a desagradável situação a amar e ajudar o próximo. Quando o caos, o medo e o desespero vêm, os laços familiares se fortalecem, enquanto que virtude e decadência revelam-se, tudo o que há de mais humano quando o assunto é apenas sobreviver.  Em Invasão Zumbi vemos o quanto a humanidade vive e move-se por meio do medo, e como que poucos têm a coragem de enfrentar seus medos e serem melhores. 


Tanto personagens principais quanto secundários têm laços afetivos, que de alguma maneira, ou são abalados ou revistos de alguma forma, mas em todos os casos as pessoas se veem mais ainda dependentes ou responsáveis por proteger seu familiar ou qualquer pessoa com algum laço sentimental.


Apesar das cenas clichês dos filmes de terror zumbi (Nunca cansativas para quem gosta do gênero), o filme de Yeon Sang-ho nos surpreende ao mostrar o quanto a sociedade está presa a preconceitos e ao individualismo. Nos faz refletir sobre como podemos ser melhores e mais fortes ao unirmo-nos diante de um mundo hostil e caótico.  Não é nenhum grande filme com um enredo espetacular ou com atores internacionalmente renomados, mas consegue fazer com que o telespectador pense e reflita sobre si, o meio em que vive e o quanto um ser humano pode ter um caráter mais belo ou mais horrível que um morto-vivo. 

QNP02- Lino San

terça-feira, 4 de julho de 2017

E você faz 30



E você faz 30, a coisa muda.
Você já não quer perder tempo com qualquer coisa que não for construtiva.
Você procura qualidade e não mais quantidade.
Dormir cedo já não é coisa de velho ou você já não é tão novo.
Presença não é sinônimo de segurança.
Preocupações que só seus pais tinham passam a ser cotidiano pra você.
Algumas coisas você já sabe que não darão certo.
Algumas coisas você já sabe que darão certo.
Você não pede pra ninguém ficar, a não ser que queira.
O amor ganha novo significado.
Ausência, necessariamente, não significa distância.
Ausência, às vezes, é necessidade e você entende isso.
Afastar-se é preciso.
Calma e paciência são faculdades que só a vida ensina e é preciso aprender.
Felicidade não existe. Momentos sim.
Todo ideal de vida que você acreditou até seus vinte e poucos, é quebrado.
Você vê beleza na tristeza.
Emociona-se com o verdadeiro.
Talvez pense que algumas coisas você faria diferente hoje, talvez.
Alguns cabelos brancos surgem.
Alguns medos bobos rugem.
Tudo ganha um novo significado.
Você entra em pânico.
Você surta.
Mas se recupera e segue.
E segue.
E
E entende que esse texto não é depressivo, é constativo.
E a vida continua.


QNP01 - Luciano Syd

sábado, 1 de julho de 2017

Migalhas

Quando eu pensava em ser melhor
Já era
Quando sentia saudade e
Rompia
Saudade eu sentia
Quando um abraço não bastava
E quando queria a eternidade
Quando pouco queria menos
Responsabilidade
Quando te esperava era saudade
O que o mundo fez disso
Pouco me importa
Se rompe,
Paciência e cadência
Se foi só isso
Foi



QNP04 - Edgar de Oliveira Barbosa

quinta-feira, 29 de junho de 2017

“prêmio”

Cansaço
Sensação sem sentido
De sentidos lentos
Sentidos sem propósitos
Corpo quase cadáver
Rasteja-se
Sente o peso do corpo
E lento
Sobe e desce escadas
Sonolento ainda luta
Em tal sôfrega inútil
Toma água
Toma fôlego
Toma da vida
Diário soco
E continua...

Monumentos
Para os apáticos constrói
Para os desumanos trabalha
Desconstrói-se
Sendo sugado
Até a penúltima gota de sangue
Pois a última
É para o amanhã
Nova chama
Esperança de Sísifo...

Foto: Sebastião Salgado "As minas de ouro de Serra Pelada"



QNP02-  Lino San

segunda-feira, 26 de junho de 2017

terça-feira, 20 de junho de 2017

Amor Platônico (não vulgar)


Mesmo sem te ver
Posso inebriar-me em seu cheiro
Escutar sua voz
Sentir tua pele

É saudade?
A volúpia em uma taça?
Ou será apenas vaidade,
E vento que passa?


Lucas Galisteu

domingo, 11 de junho de 2017


A mente derradeira corrente De onírico e presente Se fazia só. E sente algoz de somente a minha virtude demente de solo sofrido da minha vó A doce corrida doída
que em vida tracejo será um bocejo ou grito só. A mente dura e crua Sua e sem semente dói na gente como suaró A vida ainda esquisita é mero e propicio para os dias só A via quimera maldita Esboço esquecido de uma mente pó Caminha minha diva ao relento e em epifania caminha só deveras cadente a mente somente caminha, oh! Soturno surda e absurda era uma vez a minha voz


QNP04 - Edgar de Oliveira Barbosa