quinta-feira, 20 de julho de 2017

De Romero a zumbis coreanos

É, meus amigos, George Romero o mestre do terror  se foi e infelizmente não voltará do túmulo como em seus filmes, mas saibamos que ele deixou um legado horripilante e muito rico para nosso cinema. Para além dos mortos-vivos, seus filmes nos fazem refletir sobre muitas coisas, a começar pela nossa existência. E assim como ele, muitos outros diretores continuarão a nos surpreender.


Dias atrás recebi a notícia da morte do diretor de cinema George Romero justamente quando ia começar a assistir um filme do mesmo gênero que sempre fora proposto por ele nas telas, porém, de outro diretor, Yeon Sang-ho,  e de uma terra bem distante da América do Norte, a Coréia do Sul. O filme que originalmente pode ser traduzido do coreano apenas como Busan, no Brasil recebeu o tosco nome de Invasão Zumbi (Quem é que traduz os nomes desses filmes?).



Estranhas coincidências zumbis a parte, o filme do premiado diretor Yeon Sang-ho à primeira impressão parece ser um terror pobre de enredo e feito apenas para vender e dar alguns sustos, porém acaba sendo mais um drama surpreendente do que um terror meia-boca, onde, assim como os trabalhos de Romero, zumbis, cenas de tensão, sangue, violência e carnificina são em boa parte, apenas um pano de fundo para retratar assuntos mais profundos ou fazer críticas sociais.


O filme conta a história do individualista Seok-woo, um workaholic divorciado e tremendamente egoísta e sua filha Soo-an, uma garotinha meiga e nada parecida com o pai. Além de egoísta é ausente como pai, pois está sempre preocupado com o trabalho e nunca tem um tempo para a filha, o máximo que ele faz é dar presente repetido a ela. Convencido pela filha a visitarem a ex-esposa que mora na cidade de Busan,  Seok-woo se vê em uma situação aterradora quando o trem do qual viajam está sendo infectado por algo que transforma os tripulantes em zumbis enquanto que o país todo entra em estado de emergência com a acelerada infecção da população. Desesperado, Seok-woo só pensa em salvar-se junto com a filha e ir para um local seguro, não se importando com mais ninguém. 


O pai de Soo-an irá aprender com ela e com a desagradável situação a amar e ajudar o próximo. Quando o caos, o medo e o desespero vêm, os laços familiares se fortalecem, enquanto que virtude e decadência revelam-se, tudo o que há de mais humano quando o assunto é apenas sobreviver.  Em Invasão Zumbi vemos o quanto a humanidade vive e move-se por meio do medo, e como que poucos têm a coragem de enfrentar seus medos e serem melhores. 


Tanto personagens principais quanto secundários têm laços afetivos, que de alguma maneira, ou são abalados ou revistos de alguma forma, mas em todos os casos as pessoas se veem mais ainda dependentes ou responsáveis por proteger seu familiar ou qualquer pessoa com algum laço sentimental.


Apesar das cenas clichês dos filmes de terror zumbi (Nunca cansativas para quem gosta do gênero), o filme de Yeon Sang-ho nos surpreende ao mostrar o quanto a sociedade está presa a preconceitos e ao individualismo. Nos faz refletir sobre como podemos ser melhores e mais fortes ao unirmo-nos diante de um mundo hostil e caótico.  Não é nenhum grande filme com um enredo espetacular ou com atores internacionalmente renomados, mas consegue fazer com que o telespectador pense e reflita sobre si, o meio em que vive e o quanto um ser humano pode ter um caráter mais belo ou mais horrível que um morto-vivo. 

QNP02- Lino San

terça-feira, 4 de julho de 2017

E você faz 30



E você faz 30, a coisa muda.
Você já não quer perder tempo com qualquer coisa que não for construtiva.
Você procura qualidade e não mais quantidade.
Dormir cedo já não é coisa de velho ou você já não é tão novo.
Presença não é sinônimo de segurança.
Preocupações que só seus pais tinham passam a ser cotidiano pra você.
Algumas coisas você já sabe que não darão certo.
Algumas coisas você já sabe que darão certo.
Você não pede pra ninguém ficar, a não ser que queira.
O amor ganha novo significado.
Ausência, necessariamente, não significa distância.
Ausência, às vezes, é necessidade e você entende isso.
Afastar-se é preciso.
Calma e paciência são faculdades que só a vida ensina e é preciso aprender.
Felicidade não existe. Momentos sim.
Todo ideal de vida que você acreditou até seus vinte e poucos, é quebrado.
Você vê beleza na tristeza.
Emociona-se com o verdadeiro.
Talvez pense que algumas coisas você faria diferente hoje, talvez.
Alguns cabelos brancos surgem.
Alguns medos bobos rugem.
Tudo ganha um novo significado.
Você entra em pânico.
Você surta.
Mas se recupera e segue.
E segue.
E
E entende que esse texto não é depressivo, é constativo.
E a vida continua.


QNP01 - Luciano Syd

sábado, 1 de julho de 2017

Migalhas

Quando eu pensava em ser melhor
Já era
Quando sentia saudade e
Rompia
Saudade eu sentia
Quando um abraço não bastava
E quando queria a eternidade
Quando pouco queria menos
Responsabilidade
Quando te esperava era saudade
O que o mundo fez disso
Pouco me importa
Se rompe,
Paciência e cadência
Se foi só isso
Foi



QNP04 - Edgar de Oliveira Barbosa

quinta-feira, 29 de junho de 2017

“prêmio”

Cansaço
Sensação sem sentido
De sentidos lentos
Sentidos sem propósitos
Corpo quase cadáver
Rasteja-se
Sente o peso do corpo
E lento
Sobe e desce escadas
Sonolento ainda luta
Em tal sôfrega inútil
Toma água
Toma fôlego
Toma da vida
Diário soco
E continua...

Monumentos
Para os apáticos constrói
Para os desumanos trabalha
Desconstrói-se
Sendo sugado
Até a penúltima gota de sangue
Pois a última
É para o amanhã
Nova chama
Esperança de Sísifo...

Foto: Sebastião Salgado "As minas de ouro de Serra Pelada"



QNP02-  Lino San

segunda-feira, 26 de junho de 2017

terça-feira, 20 de junho de 2017

Amor Platônico (não vulgar)


Mesmo sem te ver
Posso inebriar-me em seu cheiro
Escutar sua voz
Sentir tua pele

É saudade?
A volúpia em uma taça?
Ou será apenas vaidade,
E vento que passa?


Lucas Galisteu

domingo, 11 de junho de 2017


A mente derradeira corrente De onírico e presente Se fazia só. E sente algoz de somente a minha virtude demente de solo sofrido da minha vó A doce corrida doída
que em vida tracejo será um bocejo ou grito só. A mente dura e crua Sua e sem semente dói na gente como suaró A vida ainda esquisita é mero e propicio para os dias só A via quimera maldita Esboço esquecido de uma mente pó Caminha minha diva ao relento e em epifania caminha só deveras cadente a mente somente caminha, oh! Soturno surda e absurda era uma vez a minha voz


QNP04 - Edgar de Oliveira Barbosa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

MISTERIOSAMENTE: Três portas


       Misteriosamente, quando voltava para o seu quarto no hotel, Du Chemin, o elevador parou no sexto andar, seis andares abaixo de onde estava seu quarto, e a porta abriu-se automaticamente, como se convidasse-o para sair. Esperou por cerca de seis minutos que o elevador voltasse a funcionar, pressionando o botão do painel correspondente ao andar onde estava hospedado, e espreitando o correr à sua frente na expectativa de que alguém surgisse com uma solução. Vencido pela impaciência, resolveu deixar aquele elevador e continuar seu trajeto pelas escadas. Mal deu os primeiros passos no corredor longo e deserto, percebeu com certa curiosidade a presença de três portas em sequência que nada mais seriam que três portas de três apartamentos, se não fossem tão incomuns. Na primeira porta, havia um pequeno letreiro com o pedido “Não perturbe” pendurado na maçaneta; a segunda estava entreaberta e a terceira também tinha um letreiro pendurado na maçaneta com este pedido “ Entre”. Ignorando a voz silenciosa e imperativa do primeiro letreiro, e com a inquietação de uma criança curiosa, ele empurrou vagarosamente a primeira porta, porém nada pôde ver senão uma profunda escuridão. Sentindo-se atraído por aquele mistério, adentrou com cautela aquele interior sombrio, e sentou-se em uma poltrona na qual esbarrou pouco depois de entrar. Tateando o que parecia ser um abajur confirmou sua suspeita, quando viu sua lâmpada derramar uma luz fulva e morna nos arredores daquele lugar que parecia uma sala. Avistou e identificou com olhos arregalados uma quadro na parede, onde estavam retratados seus falecidos pais. Uma saudade avassaladora começou a corroer seu peito, sobretudo quando uma vitrola, por certo mágica, escondida em uma sombra, começou a funcionar de modo a suspender no ambiente tristonho um acalanto que ele tantas vezes ouviu na infância. Logo lhe veio a lembrança de uma ama querida que cuidava dele naquele período. Também percebeu naquele cômodo uma pequena adega com suas bebidas favoritas, submersa em uma nuvem de fumaça de cigarro. E, era impossível não se lembrar dela, do antigo amor, diante das manchas respingadas na parede, vermelhas como o batom com o qual marcava território em seu peito nu. Por fim, aterrorizou-se em meio às trevas do apartamento, quando alcançou com o olhar um revólver sobre uma escrivaninha, como tudo, muito familiar. Passou por aquela porta enigmática suarento e apoiando-se nas paredes para não cair. Sua respiração desenfreada quase que o impedia de ouvir os burburinhos que fugiam da segunda porta, aquela entreaberta, e a constatação de vozes impulsionou-o ao seu interior, e lá dentro, lá dentro havia muita luz. Havia algumas pessoas conversando tranquilamente, mas que não eram identificáveis por causa de máscaras que usavam. Estavam elegantes, assim como o ambiente que ora parecia um cassino, ora parecia um bordel. Uma mulher vestida apenas com um biquíni começou a andar à sua volta e dançava como uma odalisca. Uma outra que lembrava uma aeromoça parecia querer entregar-lhe uma maleta, e outra mulher ainda, uma senhora desdentada, avançou sobre ele gritando palavras russas, que ele não era capaz de traduzir tamanho o desespero da pronúncia. Ele deixou apavoradamente aquela sala e deparando-se com o letreiro da terceira porta e a inscrição “Entre”, não hesitou em fazê-lo, embora fosse esta porta mais estranha ainda. Não havia quase nada na provável sala que entrara. Para dizer a verdade, um velho colchão jogado em um canto, um jornal amassado ao seu lado, um calendário poento na parede. A luz que vinha do corredor do lado de fora projetava nas paredes daquela sala algumas sombras esparsas, que formavam a imagem de grades. De repente, uma imensa ratazana passou correndo no meio da sala e fitando o brilho nos olhos do animal, ele afastou-se de lá em uma corrida exaustiva e impetuosa, atravessando o corredor em direção às escadas e sequer ouvindo a sirene do carro de polícia que ecoava na rua.

        QNP05 - Alexandre Campanhola

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Viva os idiotas!

Se eu fosse medir em porcentagem a quantidade de asnos (com todo o respeito ao animal) que estão em posições altas nesse país, diria que são uns 95%. Seja no setor público ou privado, na cidade grande ou no interior, sempre tem algum incompetente contratado, não se sabe por que, para ocupar o lugar de pessoas que seriam melhores. A gente ouve absurdos de pessoas que estão em alguma posição “mais alta” ou que se acham superiores por algum motivo ególatra e temos de fingir concordar ou ficar em silêncio para evitar conflitos. Isso dá nos nervos.

Temos de ver gente que nunca se interessou por literatura ou filosofia postando frases descontextualizadas de alguns pensadores em redes sociais para afirmar ainda mais seus pontos de vista sem investigar a fundo o que se está pregando ou odiando. Digo isso porque há um perfil de cidadão construído ao longo dos anos em nossa sociedade, é o intelectualmente preguiçoso e arrogante. É aquele que tem preguiça de ler, de pesquisar, de pensar, e não é melhor do que ninguém, mas pensa que sabe mais ou que é melhor, um verdadeiro alienado, um sabichão que nada sabe, apenas reproduz informações rasas. É duro ver teu chefe de setor tirando onda com a sua cara porque você pensa diferente. É o mesmo cara que posta as mesmas fotos chatas sobre política já faz uns anos, mas não lê nem ao menos um artigo sobre o assunto dentro de um mês. E depois, nas rodas de cerveja ou churrascos ele, esse mesmo mala de sempre, prega sempre o mesmo discurso sobre tudo com tom de quem obtém todo o conhecimento da humanidade.

Sartre propõe que o inferno são os outros, mas que também, por outro lado todos nós dependemos uns dos outros para vivermos.  Mas pensando no contexto atual, muitos têm sido apenas o inferno e não tem nada a oferecer, pelo contrário, só vomitam ideologias e pensamentos sem sentido e muitos acabam acatando e fazendo o mesmo. Algumas pessoas se apegam a ideologias extremistas justamente por não terem conteúdo ou simplesmente por não terem opinião própria, e isso é triste e perigoso.

Dizem que eu me incomodo demais com certas coisas que não posso mudar, mas também rebato: até quando seremos obrigados a nos calar diante de falas estúpidas, e ficarmos em silêncio apenas para nos mantermos em um emprego que nem é tão agradável, ou então porque o fulano é um parente querido e não gosta de ser contestado (e às vezes ele nem é tão querido assim). Não só isso, muita gente ainda sofre preconceitos ou abusos psicológicos por parte de ditadorezinhos que se aproveitam de seus posicionamentos privilegiados em alguma hierarquia empresarial ou pública. Aproveitam-se por serem medíocres e apáticos às reais preocupações sociais ou às pessoas que os rodeiam. É o mesmo perfil de políticos que se aproveitam do seu cargo para fazerem conosco o que bem entendem, simplesmente porque pensam que são autoridades. São pessoas com capacidades morais e sociais limitadas, mas com um “poder” de persuasão que pode moldar a cabeça dos ingênuos.


Quando não aparecem pedantes, aparecem seres desprovidos de tudo, de qualquer bom senso ou embasamento querendo debater o que não entende. E a plateia aplaude de pé com a fé de que a burrice irá salvar o Brasil, o Mundo ou a Via Láctea. Em um futuro não muito distante dirão que quem é burro está em um nível superior e transcendental. Farão concursos nacionais para os mais estúpidos e retrógrados. Livros serão publicados com as falas mais insanas dos ganhadores. Pão e circo será sempre a arte mais alta.


QNP02 - Lino San

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Livre Mesmo


Ó liberdade outorgada
pelo meu coração
que vem marcada a ferro
atrapalha a visão

Que só me faz partir
se te abandonar
quando quero ficar
mas será covardia

Ó liberdade vadia
De tão livre que estou
não me deixa ficar
mas será covardia
se te abandonar

já não posso voar
não posso reclamar
sabe bem que eu perdi
a razão de lutar

Eu que vivi por ti
hoje fico contente

na prisão que me traz.

(1997)